25 agosto, 2010

Queremos participar do crescimento econômico brasileiro

Recém-empossado, o novo secretário de Comércio Internacional da Argentina, Luis Maria Kreckler, objetiva manter o que considera “boas relações comerciais com o Brasil”, buscando explorar a entrada de produtos argentinos no Nordeste brasileiro.

Diplomata de carreira, Kreckler almeja, ainda, que os dois países se tornem parceiros complementares na comercialização de alimentos em terceiros mercados, sobretudo na China e na Índia, que apresentam uma demanda que permite essa complementaridade. O secretário falou ao Global Online com exclusividae durante o Seminário Bilateral de Comércio Exterior Brasil–Argentina, realizado na semana passada na CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), no Rio de Janeiro. Confira.

Global Online: Como está o comércio internacional argentino?

Luis Maria Kreckler: O futuro do comércio internacional da Argentina é promissor. Depois de uma queda nos índices de crescimento em 2009, estamos prevendo aumento entre7% e 8% em 2010.

O valor das exportações de bens tem aumentado de forma sustentável: de US$ 25 bilhões em 2003 para US$ 75 bilhões em 2008 – ou seja, nossas exportações triplicaram em seis anos.

A balança comercial também apresenta dados satisfatórios. O superávit acumulado desde o início do século chegou a US$ 110 bilhões, possibilitando à Argentina reservas de US$ 50 bilhões no Banco Central do país.

O comércio exterior vai continuar crescendo. Assim, é fundamental destacar que os êxitos alcançados por nossa economia nos últimos anos estão em grande parte relacionados a uma firme decisão política de revitalizar os instrumentos de integração regional que nos permitem reunir o melhor de cada um em nossa relação com o mundo.

Global Online: Do ponto de vista do governo argentino, o que se pode esperar das relações comerciais com o Brasil para os próximos anos?

Kreckler: O princípio fundamental da política externa da Argentina é o contexto geral da cooperação entre nossos países. Por esse motivo, queremos salientar a especial importância que reveste esse princípio dos vínculos com o Brasil, não somente pelo fato de sermos grandes parceiros comerciais, mas também em função de se buscar maior dimensionamento no contexto do continente sul-americano.

Por muito tempo, argentinos e brasileiros se conheciam muito no futebol, mas careciam de maior familiaridade no comércio. Isso – ainda bem – está mudando; basta ver os números. Só que precisamos avançar. Um dos pontos é fortalecer nossa presença em terceiros mercados no setor de alimentos, no qual somos bastante eficientes.

Nessa área, o Brasil e a Argentina são imbatíveis. Nos mercados asiáticos, porém, não somos concorrentes, mas complementares. A demanda chinesa por alimentos está cada vez mais aquecida, e precisamos traçar estratégias em conjunto para atendê-la. Essas ideias serão apresentadas nas próximas reuniões das comissões bilaterais.

Global Online: Há alguma estratégia específica?

Kreckler: Meu propósito é buscar maior participação, não apenas do setor de bens semi e manufaturados. Queremos ampliar, também, a participação da balança de serviços e de infraestrutura, já que o Brasil irá sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Logicamente, há muito interesse das empresas argentinas em trabalhar nesses eventos, sobretudo nas áreas de logística e construção civil. Além disso, o Rio de Janeiro oferece oportunidades no setor de exploração de petróleo e gás.

Não estou me referindo à entrada de empresas argentinas para competir com as gigantes, mas sim de pequenas empresas que fazem parte da cadeia produtiva.

Global Online: A região Sul do Brasil tem forte comércio com a Argentina. Os senhores pensam em incentivar uma maior inserção comercial em outros Estados brasileiros?

Kreckler: Sem dúvida. Queremos fortalecer nosso comércio bilateral e consideramos o Rio de Janeiro importante nesse processo. Isso porque o Estado pode funcionar como porta de entrada para a distribuição de produtos argentinos no Nordeste brasileiro. É preciso que os empresários, contudo, conheçam a região. Então, vamos coordenar missões comerciais para o Nordeste e nos reunir com entidades empresariais daqueles Estados.

Em abril deste ano, uma delegação de 53 empresários dos setores de software, materiais de construção, alimentos e vestuário, entre outros, visitaram o Rio de Janeiro. Os objetivos alcançados foram muito além das expectativas iniciais. Tanto é assim que ainda neste ano iremos trazer mais uma leva de empresários para o Rio e também para diversos Estados do Nordeste.

Nossa relação com São Paulo já é bastante forte, mas entendemos que o Nordeste brasileiro vem se tornando um mercado atraente. É claro que tudo depende da facilitação logística. Estamos acompanhando os investimentos do governo brasileiro nesse setor. Por isso, acredito que as melhorias de acesso em breve serão realidade.

Global Online: Para o senhor, como o Código Aduaneiro do Mercosul (assinado em 3 de agosto durante a última Cúpula do Mercosul) influenciará o comércio intrabloco?

Kreckler: A assinatura do Código Aduaneiro do Mercosul foi muito importante, pois fixará um modo de trabalho mais eficiente e menos burocrático dentro do bloco. Tenho certeza de que agora o comércio entre os países membros aumentará exponencialmente.

Participei recentemente de uma reunião bilateral na qual estiveram presentes os presidentes Lula e Cristina Kirchner. Nesse encontro foram tratadas as questões pendentes em nossa relação bilateral.

Tudo isso foi feito num clima de otimismo em relação às economias dos dois países. O Brasil apresentará crescimento considerável neste ano. Analistas de mercado apontam crescimento entre 6% e 7% – performance que dá ao País capacidade de compra de produtos argentinos. Queremos participar desse processo de crescimento.

A Argentina também tem crescido a taxas bastante altas nos últimos sete anos. Além disso, os dois países sentiram superficialmente os efeitos da crise financeira internacional. Contamos com condições únicas dentro dessa turbulência, pois estamos caminhando rumo ao crescimento.